A CENOGRAFIA
COMO LUGAR DE DESCOBERTA
Esta investigação observa a cenografia como um campo que habita numa trama elástica, sensível de escuta, onde memória, objetos e espaços participam ativamente num processo individual e coletivo, e de resignificação. Esta investigação parte de um trabalho de campo, um laboratório experimental com o Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos (GTT), pessoas com experiência de doença mental, terapeuta e profissionais das artes cénicas.
É do olhar de uma cenógrafa que a cenografia é observada como mediadora entre o consciente e o subconsciente, entre o real e o irreal. A cenografia é vista como uma grafia, como a escrita de uma poética que vai sendo criada ao longo de um tempo com várias mãos, acolhendo memórias, afetos e narrativas pessoais, dando-lhes corpo e um lugar para habitar.
Mais do que propor uma nova técnica, este projeto abre um espaço de pensamento onde a cenografia é entendida como um território de criação contemporânea — um lugar para habitar memórias e construir novas narrativas.
Dissertação no âmbito do mestrado de Artes Cénicas, especialização Cenografia da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE, Porto):
"Entre a Memória e o Objeto: a Cenografia como um lugar de descoberta no Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos"
Sobre o GTT
Criado em 1968 no Hospital Júlio de Matos, o GTT é um projeto pioneiro que cruza a prática teatral com a terapia, através de um elenco e equipa multidisciplinares.
A dança, a música, a caracterização, os figurinos, a cenografia e a luz, exploram todas as dimensões da criação cénica em conjunto com o trabalho terapêutico.
Ponto de partida
Após vários anos a acompanhar de perto o percurso do Grupo senti uma vontade em estabelecer um diálogo com a cenografia que fosse além do processo de criação de um espetáculo.
Esta investigação nasce dessa inquietação: a vontade de observar a cenografia não apenas como um resultado cénico, mas como uma prática artística situada entre a memória e o objeto, com o contexto do Grupo.
Laboratório de cenografia
Realizado no Salão Nobre do Hospital Júlio de Matos, espaço onde o GTT habita desde 1968. O Grupo é constituído por um elenco de atores com experiência de doença mental, uma equipa de profissionais de saúde e de teatro e voluntários de várias áreas.
O laboratório assenta numa metodologia de pesquisa-ação com o Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos. Desta forma foi possível aprofundar as relações entre a cenografia, entre o processo terapêutico e criativo nos atores, enquanto pessoas com experiência da doença mental. O trabalho desenvolvido neste laboratório também poderia ter sido realizado com outras comunidades, no entanto, através da relação com a terapia ao longo do trabalho do Grupo, encontramos uma autenticidade na forma como se entregavam às sessões, individualizando a investigação.
O diário. A terapia.
Um lugar.
Surge no encontro entre o Laboratório de Cenografia e o GTT, este projeto parte de fragmentos literários de João Silva e André Carvalho. Retiradas do seu contexto original, estas palavras serviram de ponto de partida para a criação de novos lugares.
Contaminado pelos traços do que antecede e do que nos aguarda, o diário e a terapia passam a habitar o mesmo lugar.
As palavras tornam-se invisíveis e os lugares visiveis, o traço segue ao longo de todas as páginas, o fim de um desenho inicia outro.
© Flávia Cassiano